Por que um líder nunca passa duas vezes pelo mesmo rio?

SÉRIE LIDERANÇA 360° · ARTIGO 5 DE 6 · O P DE PERSPECTIVA

De Henry Ford ao elétrico chinês, todo rei foi destronado por quem leu o futuro primeiro.

1921. Highland Park, Michigan. A cada minuto, um automóvel novo desliza para fora da linha de montagem — todos idênticos, todos pretos. Henry Ford controla cerca de 60% de todos os carros e caminhões dos Estados Unidos. Ele não apenas domina o mercado: ele o inventou. Foi ele quem tirou o automóvel das mãos dos ricos e o colocou na garagem do americano comum, movido por um propósito quase missionário — tirar os cavalos das estradas. No topo do mundo, Ford resume a sua filosofia numa frase que entraria para a história: o cliente pode ter o carro de qualquer cor, desde que seja preto.

Guarde essa frase, porque ela é o som exato de um império começando a ruir. Ford se apaixonou pela própria fórmula. Ofereceu o mesmo carro, quase sem mudanças, por quase duas décadas convencido de que o futuro seria só uma continuação do presente que o fizera rei. Ele tentou entrar duas vezes no mesmo rio. E o rio, como sempre, já havia mudado. Foi o erro mais caro da história da indústria. E é o tema do quarto P da nossa série.

Entregar hoje é indispensável — falamos disso no P de Performance. Mas há algo que separa o líder do gestor com uma clareza quase cruel: o gestor pergunta “como vendo mais do que já vendo?”; o líder faz a pergunta incômoda, a que tira o sono: e se o meu cliente de amanhã não quiser aquilo que me faz rico hoje? Perspectiva é isto: a capacidade de ler cenários, enxergar de todos os ângulos e, sobretudo, antecipar. Ela exige uma disciplina rara: aprender, desaprender e reaprender na velocidade da mudança. Não é saber o que o concorrente faz agora; qualquer relatório mostra. É prever o que ele fará. Quem só reage ao presente já chegou atrasado.

E nenhum setor conta essa lição melhor do que o automóvel, uma sucessão de reis destronados, cada um por quem enxergou o futuro primeiro. Uma corrida de revezamento em que o bastão sempre passa para as mãos de quem fez, antes dos outros, a pergunta sobre o amanhã

E quando não fazemos a leitura certa do mercado

Foi pela brecha aberta por Ford que a General Motors passou. Sob Alfred Sloan, a GM não brigou por preço — ofereceu justamente o que a Ford recusava: escolha. Cores variadas, uma marca para cada bolso, do Chevrolet ao Cadillac, modelo novo a cada ano, venda a crédito. “Um carro para cada bolso e propósito.” Quando a Ford finalmente reagiu, em 1927, teve de parar a produção por meses para lançar o Modelo A. Tarde demais. A GM assumiu a liderança e a segurou por 77 anos.

Até que alguém fez a mesma pergunta de novo. Nos anos 1970 e 1980, enquanto Detroit deixava a qualidade escorregar, uma japonesa crescia com outra perspectiva: produção enxuta, obsessão por qualidade, carros econômicos num mundo sacudido pelos choques do petróleo. O Sistema Toyota de Produção virou objeto de estudo no planeta inteiro. Em 2008, a Toyota destronou a GM e encerrou aqueles 77 anos de reinado.

E a roda girou outra vez. Em 2020, uma empresa que mal completava duas décadas e fabricava uma fração do que a Toyota produzia tornou-se a montadora mais valiosa do planeta: a Tesla. Não pelo volume, naquele momento a Toyota fazia mais de vinte carros para cada Tesla, mas porque o mercado apostou na perspectiva, não no presente. O futuro era elétrico. E a Toyota, que liderara a era dos híbridos, chegou atrasada ao carro 100% elétrico.

E, como manda a regra deste P, a própria Tesla já foi alcançada. A chinesa BYD , elétricos mais baratos, baterias de recarga ultrarrápida, uma linha que vai do popular ao sofisticado, superou a Tesla em receita anual já em 2024 (US$ 107 bilhões contra US$ 97,7 bilhões) e, em 2025, tornou-se pela primeira vez a maior vendedora de elétricos do mundo no ano inteiro, com mais de 2,25 milhões de unidades. O trono trocou de dono outra vez.

Mas repare no detalhe que fecha a lição com chave de ouro: em 2025, o lucro da própria BYD caiu — a primeira retração anual desde 2021 —, esmagado por uma guerra de preços entre mais de duzentas marcas chinesas. Ou seja: a roda já está girando contra quem acabou de vencer. Ford, GM, Toyota, Tesla, BYD. Nenhuma perdeu a liderança por falta de tamanho, de dinheiro ou de competência técnica. Perdeu para quem fez, primeiro, a pergunta sobre o amanhã. E ninguém, jamais, garante a próxima volta.

Não Existe Resposta Certa para Pergunta Errada ou quando Decidimos não Perguntar.

Se há um jeito de não virar capítulo de livro de história, é o oposto da arrogância de Ford: testar a própria obsolescência antes que o mercado a teste por você. Em 2014, no auge da marca, o McDonald’s abriu em Sydney uma loja sem o arco dourado na fachada. Chamava-se The Corner, servia comida natural e saudável e funcionava como um laboratório do futuro — um espaço para, longe da própria marca, descobrir o que o cliente vai querer quando se cansar do hambúrguer. O experimento não virou rede e foi encerrado em 2020. E ainda assim não fracassou: vários dos seus aprendizados migraram para outras operações da rede. Isso é Perspectiva em ação. Antecipar não é obsessão de futurólogo; é higiene de liderança.

Eu sei o peso dessa pergunta porque um dia ela me obrigou a queimar a minha própria fórmula. Antes da educação, fui repórter de televisão por mais de dez anos. Passei pela Rede Manchete, pelo SBT, pela CNT, viajei o Brasil e a Europa cobrindo reportagem, e cheguei à TV Bandeirantes como repórter especial na equipe de Paulo Henrique Amorim. Tinha nome, tinha contrato, tinha um bom salário. Tinha, aparentemente, tudo o que um jornalista queria.

Foi então que a minha chefe de reportagem me pediu um “povo fala”, parar gente na rua para dizer qual era a sua bronca. Achei que aquilo não tinha fundamento jornalístico e, pela primeira vez na carreira, me recusei. Ela foi direta: ou eu fazia, ou seria demitido. Escolhi sair. Costumo dizer que naquele dia não fui demitido — eu demiti a empresa. Saí de cabeça erguida e de barriga gelada, era um frio danado. Enquanto atravessava a porta da redação, uma pergunta me martelava: e agora, como vou me sustentar, como vou me reerguer? Não era orgulho ferido; era princípio. Eu tinha decidido que não faria nada que não fizesse sentido para mim  e aquela reportagem, simplesmente, não fazia mais.

Mas, quando a poeira baixou, o que eu sentia não era orgulho: era um pressentimento incômodo, quase físico. O meu mercado estava mudando debaixo dos meus pés, e eu era um dos poucos que parecia ouvir o barulho.

Eu entrava às oito da manhã e só saía depois de o telejornal ir ao ar, às oito da noite. Feriados, Natal, réveillon, sempre na redação. E, ao meu lado, chegava uma garotada talentosa e disposta a fazer tudo aquilo por muito menos. Fiz as contas do futuro, não do presente — e o presente ainda era confortável, o que torna esse tipo de conta ainda mais difícil de encarar. A conclusão foi dura: nós não tínhamos a menor chance de vencer aquela competição. O jornalismo entraria no que hoje chamamos de juniorização. Muitos colegas brilhantes que não enxergaram essa curva a tempo terminaram desempregados.

Foi aí que decidi migrar para a educação e acabei me viciando nessa nova cachaça, que carrego até hoje. Não foi uma decisão fácil; foi uma decisão necessária. Com nome feito num mercado, tive que recomeçar do zero num terreno que eu mal conhecia — trocar a segurança do que dominava pela incerteza do que ainda ia aprender. Doeu. Mas recomeçar não me enfraqueceu: me deu mais força ainda, porque quem escolhe recomeçar já provou a si mesmo que não tem medo do desconhecido. Não saí do jornalismo porque fracassei nele; saí porque li, antes que doesse, para onde o rio estava correndo. E é essa a diferença entre nadar com a corrente do amanhã ou se afogar na do ontem. Fica registrada mais uma Máxima do Starec: quando tudo vai bem é a hora mais perigosa, porque o sucesso de hoje é o anestésico que impede o líder de sentir a dor do amanhã.

No método HELIAR™ de Liderança 360°, aquela disciplina rara que mencionei lá no início tem nome: Learning Agility. É a expressão máxima da Perspectiva, a coragem de aprender, desaprender e se reinventar na velocidade da mudança, para seguir relevante quando o cenário vira. Ford não perdeu por falta de inteligência. Perdeu porque parou de desaprender.

Há dois mil e quinhentos anos, Heráclito de Éfeso deixou escrita a lei que rege este P: nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio — porque, na segunda vez, nem o rio nem o homem serão os mesmos. É a sentença mais exata já dita sobre liderança. Ford tentou entrar duas vezes no mesmo rio, oferecendo o mesmo carro a um mundo que já havia mudado, e foi tragado pela correnteza. A GM, a Toyota, a Tesla, a BYD, cada uma, no seu tempo, esqueceu que a água nunca para. Esse é o erro que se repete há um século: confundir o rio de ontem com o de hoje.

Mas repare na outra metade da frase do grego, a que quase ninguém cita: não é só o rio que muda — o homem também. E aqui está a boa notícia que o pessimismo esconde. Se a mudança é inevitável, então a cada travessia você tem a chance de chegar à outra margem diferente, mais forte, mais preparado. O líder que teme o rio se agarra à pedra e afunda. O que entende Heráclito aprende a nadar e descobre que foi a própria corrente que o tornou mais forte. Foi o que senti quando troquei a redação pela sala de aula: não atravessei o mesmo homem que entrou.

Fica, então, a pergunta que arde: você está tentando entrar duas vezes no mesmo rio — repetindo a fórmula que o fez vencer ontem — ou já teve a coragem de mergulhar nas águas novas do amanhã? Porque o rio não vai esperar. Ele nunca esperou por Ford. Não vai esperar por você.

No próximo e último artigo da série, fechamos o círculo com o P que costura todos os outros: o Posicionamento. Porque, depois de aprender a ler o futuro, resta a pergunta que decide tudo, quem, afinal, o mundo percebe que você é? Você não é quem pensa que é. Você é quem os outros percebem que você é. Até lá.

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Claudio Starec é consultor, mentor de executivos, palestrante e autor. Há mais de 35 anos desenvolve líderes e organizações no Brasil e em Portugal, e é o criador do método HELIAR™ de Liderança 360°. www.claudiostarec.com.br

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