Pronto! O problema não é fazer. É terminar da forma certa.

“Pronto!” A arte do imperfeito.

Na minha jornada como professor, dei aula para turmas de formação de intendentes da Marinha, no CIAW, o Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, na Ilha das Enxadas, no meio da Baía de Guanabara. Chegar lá era uma operação: eu tinha que pegar o barco no cais da Praça XV às sete em ponto, ou perdia a aula, que começava às oito, nem um minuto a mais. A travessia levava uns trinta minutos, com a cidade acordando às minhas costas e a ilha crescendo à frente. Quando eu entrava na sala, todos se levantavam. Disciplina de outro planeta, o que faz sentido: a Marinha é a mais antiga das nossas Forças Armadas, com mais de dois séculos de história. Ali, cada gesto tem hora e propósito.

Foi ali que um oficial me ensinou algo que carrego até hoje. Ele me apresentou o “Pronto!“. É assim que o marinheiro sinaliza que terminou a tarefa: bateu continência, disse “Pronto!”, missão encerrada. Elegante, direto. Só que os próprios intendentes fizeram uma ressalva que me deixou pensando por semanas.

O “Pronto!” garante que a tarefa foi executada. Não garante que foi bem executada. E entre uma coisa e outra mora um abismo.

Parece sutileza, mas não é. A gente vive confundindo as duas coisas. Terminar dá uma sensação boa, quase física, de dever cumprido: riscamos o item da lista, respiramos aliviados e seguimos em frente. Só que “terminei” e “ficou bom” são perguntas diferentes, e a segunda quase nunca é feita. No mundo do treinamento corporativo existe até um nome para esse vício: fazejação ou fazejamento. A arte de fazer sem pensar.

Produzir pelo produzir, entregar pelo entregar, sem parar um segundo para perguntar se aquilo faz realmente sentido.

Fazejação ou fazejamento: a arte de fazer sem pensar.

A fazejação tem muitos rostos. O mais comum é a pressa de entregar, e um exemplo recente saiu caríssimo. Em maio de 2024, a Sonos, fabricante americana de caixas de som de alto padrão, lançou uma versão totalmente nova do aplicativo que controla seus equipamentos, prometendo algo mais rápido e melhor. Havia pressa: os primeiros fones da marca estavam para chegar às lojas, e o app precisava sair junto. Lançaram. Estava pronto. Só que não estava bem feito. O app novo tinha removido funções que as pessoas usavam todo dia, do alarme à acessibilidade, e alguns aparelhos simplesmente pararam de tocar. Choveram mais de 30 mil reclamações, e a empresa viu quase meio bilhão de dólares evaporarem em valor de mercado. Em janeiro de 2025, o executivo à frente da companhia deixou o cargo. Seu sucessor resumiu o desastre em cinco palavras: mudamos coisa demais, rápido demais.

Mas a fazejação nem sempre é a pressa. Às vezes ela é mais sofisticada, e mais assustadora: você tem todos os dados na mão e erra do mesmo jeito. Foi o que aconteceu com a Coca-Cola em 1985, no que viraria um dos maiores fiascos da história do marketing.

Naquela época, a Coca vinha perdendo terreno para a Pepsi, mais doce e mais popular entre os jovens. A empresa resolveu reagir com método. Gastou 4 milhões de dólares num dos maiores estudos de sabor já feitos, ouvindo cerca de 200 mil pessoas. O veredito foi claro: o público preferia uma fórmula nova, mais adocicada, tanto à Pepsi quanto à própria Coca de sempre. Com esse dado na mão e toda a confiança do mundo, a empresa fez o impensável. Aposentou a receita de quase cem anos e lançou a New Coke.

O que veio depois não estava em nenhum gráfico. Os americanos se revoltaram. A empresa chegou a receber até 8 mil ligações por dia e cerca de 40 mil cartas de reclamação. Formaram-se grupos de protesto de gente que só queria a bebida antiga de volta, estocando latas da velha fórmula como se fossem relíquias. Não havia internet; a indignação corria por telefone, carta e boca a boca. Até Fidel Castro, lá de Cuba, entrou na dança, tratando a mudança como sinal da decadência do capitalismo americano. Setenta e nove dias depois, de rabo entre as pernas, a Coca-Cola se rendeu, reconheceu o erro e trouxe a fórmula original de volta, rebatizada de Coca-Cola Classic.

Testaram o sabor e não o valor da marca

E aqui está o que me fascina. A Coca tinha os dados. Ela só perguntou a coisa errada. Testou o sabor no copo, às cegas, e nunca perguntou o que aquela garrafa vermelha significava na vida das pessoas: a infância, as lembranças, o pertencimento. A pergunta certa nunca foi feita. A pesquisa apenas respondeu, com precisão, à pergunta errada. Fazejação, no fundo, não é só falta de pesquisa. É agir no piloto automático mesmo com uma montanha de números na mesa, porque ninguém parou para pensar se estava medindo o que de fato importava.

E se você acha que isso só acontece nas grandes empresas, tenho uma má notícia. O Anatomy of Work Index, estudo da Asana com mais de dez mil profissionais, mostra que o trabalhador médio gasta 60% do tempo em “trabalho sobre o trabalho”: reunião, status, procurar arquivo, alinhar o que já estava alinhado. Sobra só 26% para aquilo que a pessoa foi de fato contratada para fazer. E cada um perde, por ano, cerca de 209 horas refazendo tarefa duplicada ou já sem sentido. É mais de um mês de trabalho jogado na fazejação.

Por isso gosto de contrapor duas palavras. A fazejação é o oposto exato da acabativa. E a acabativa não é perfeccionismo, é responsabilidade. É entender que entregar é apenas metade do trabalho; a outra metade é garantir que aquilo resolve mesmo o problema para o qual foi criado. A fazejação, ao contrário, só quer riscar o item da lista e sentir o alívio de terminar. Uma constrói legado. A outra constrói retrabalho, aquele bumerangue que volta na sua mesa uma semana depois.

O antídoto, curiosamente, não é trabalhar mais. É trocar uma pergunta por outra. Em vez de “já ficou pronto?”, experimente perguntar “ficou bem feito?”. Parece detalhe de nada. Na prática, é a diferença entre uma equipe que entrega valor e uma equipe que só se mexe muito.

Fica então a provocação, no melhor estilo daqueles intendentes: o seu “Pronto!” é mesmo pronto?


Fontes

Marinha do Brasil, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM). marinha.mil.br

Caso Sonos: CNBC, “Sonos CEO steps down after app update debacle” (jan. 2025). cnbc.com/2025/01/13/sonos-ceo-patrick-spence-steps-down-after-app-update-debacle.html — TechRadar, entrevista com Tom Conrad. techradar.com/audio/multi-room/sonos-ceo-tom-conrad-interview-app-changes

Caso New Coke: Encyclopaedia Britannica, “New Coke”. britannica.com/topic/New-Coke — The Irish Times, “How the Cola Wars eventually ran out of fizz” (dez. 2025). irishtimes.com/business/economy/2025/12/19/how-the-cola-wars-eventually-ran-out-of-fizz

Pesquisa Asana: Anatomy of Work Index 2022, comunicado oficial (BusinessWire). businesswire.com/news/home/20220405005399asana.com/resources/why-work-about-work-is-bad

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