Quem não se comunica se trumbica. Inclusive as máquinas.

O que um agente de IA que demitiu um funcionário tem a ensinar sobre comunicação, gerações e o futuro das equipes?

Quando eu era garoto, o domingo tinha hora marcada. A família toda reunida na frente da televisão, e lá estava o Chacrinha, o Velho Guerreiro, buzina na mão, gritando aquele que talvez seja o bordão mais brasileiro de todos os tempos:

quem não se comunica se trumbica”.

Eu ficava hipnotizado. Não entendia direito por que aquilo era tão genial, mas sentia. Era uma frase que parecia que o Brasil inteiro entendia; não precisava de tradução, de nota de rodapé, de explicação. Ela simplesmente ecoava.

Décadas depois, já do outro lado, como o comunicador em vez do menino, subi num palco e repeti o bordão com o mesmo gosto de sempre. Logo depois da palestra, no jantar minha filha virou para mim e perguntou: “pai, o que significa ‘se trumbica’?”.

Eu parei. A palavra que unia um país inteiro num domingo à tarde já não atravessava a distância entre um pai e uma filha na mesma mesa. “Trumbicar” está no dicionário, virou verbete graças ao Chacrinha. Mas para ela, nascida em outro tempo, era apenas um ruído.

E foi aí que a ficha caiu. Se uma única palavra se perde no salto de uma geração para a seguinte, dentro de casa, o que dizer de uma organização inteira? Porque nas empresas de hoje convivem, pela primeira vez, cinco gerações ao mesmo tempo. E, mais novo e mais estranho que todos, um integrante que sequer é humano: a inteligência artificial.

Deixa eu trazer um caso real, porque ele diz mais que qualquer teoria.

Em São Francisco, uma startup chamada Andon Labs entregou a gestão de uma loja de verdade a uma inteligência artificial. Deram a ela um nome, Luna, acesso a um orçamento e uma missão: abrir a loja, contratar gente e tentar dar lucro. E a Luna fez tudo. Escolheu produtos, publicou vagas, entrevistou, contratou funcionários de carne e osso, com contrato real. Semanas atrás, demitiu um deles por atrasos repetidos. É um dos primeiros casos conhecidos de uma inteligência artificial atuando como gerente e participando de uma decisão de demissão.

A manchete assusta. Mas os bastidores contam outra história, e ela é toda sobre comunicação. A Luna tinha criado uma regra de ponto meses antes e depois esqueceu que essa regra existia. Ficou meses tolerando os atrasos, chegou a tranquilizar o funcionário dizendo que não era grave. Só quando um humano lembrou a máquina da própria regra, e, nas entrelinhas, deixou claro que queria a demissão, a Luna, que a princípio sugeria só uma advertência, mudou para o desligamento.

Percebe onde estava o ruído? Não estava na máquina, fria. Nem no humano, sozinho. Estava entre os dois. Foi uma falha de se fazer entender, do começo ao fim.

E não é curiosidade de laboratório. Já é rotina, só que invisível. A Uber foi levada à Justiça na Europa por decisões automatizadas que chegaram a bloquear e desativar contas de motoristas, incluindo um motorista em Portugal, sem que tivessem informação suficiente para compreender e contestar adequadamente a decisão. Nos Estados Unidos, 26 funcionários processam a Meta alegando que sistemas de inteligência artificial ajudaram a escolher quem seria demitido num corte de oito mil pessoas. A Meta nega, afirma que quem decide são pessoas, e nenhum tribunal julgou o mérito ainda. Mas o padrão que une os três casos é inconfundível: decisões sobre gente, tomadas ou influenciadas por sistemas automatizados, nas quais o desafio passa a ser explicar o porquê e garantir que exista alguém capaz de ouvir o outro lado.

É aqui que a sabedoria do Chacrinha se atualiza. Comunicar nunca foi transmitir uma mensagem. Sempre foi fazer-se entender. E o que faltou na Luna, na Uber e na Meta não foi tecnologia. Foi comunicação: o elo humano que dá contexto, que explica, e que hesita antes de cortar.

A hesitação, aliás, é o detalhe mais revelador. A própria Andon Labs refez a cena da demissão com sete modelos de IA diferentes. Quanto mais avançado o modelo, mais rápido e decidido ele era em demitir. Os mais fracos hesitavam. Nesse teste, o agente mais ‘inteligente’ foi justamente o que cortou mais depressa. Justamente porque lhe falta o que só o repertório humano oferece: a dúvida que nasce do contexto.

EMIH – Equipe Multigeracional de Inteligência Híbrida. O futuro ou o presente da Comunicação 360?

Foi pensando nisso, ao longo de anos formando líderes, que cheguei a um conceito. E é ele que apresento publicamente pela primeira vez aqui: a EMIH, Equipe Multigeracional de Inteligência Híbrida (em inglês, algo como Multigenerational Hybrid Intelligence Team).

A EMIH é o time onde diferentes gerações de pessoas colaboram com agentes de inteligência artificial não como ferramenta solta, nem como chefe invisível que decide no escuro, mas como uma inteligência a mais, integrada, explicada e supervisionada. O “híbrida” é o coração da ideia: nem só humano, nem só máquina, mas uma terceira capacidade ou mesmo inteligência que nasce da mistura bem-feita, quando cada parte cobre o vão da outra.

A máquina traz escala, velocidade e capacidade de processar grandes volumes de informação. O humano traz contexto, ética, repertório e a dúvida na hora certa. E a comunicação faz as duas inteligências se entenderem. Os três casos que contei mostram o que acontece quando se deixa a máquina decidir sozinha. A EMIH é o contrário: a inteligência artificial no circuito, sim, mas com o ser humano como portador do sentido.

O Velho Guerreiro tinha razão, e a frase dele nunca foi tão atual. Quem não se comunica se trumbica. Só que agora precisamos nos fazer entender não apenas entre gerações, mas entre humanos e máquinas.

E fica a pergunta que deixo para você: a inteligência artificial na sua equipe já é tratada como um integrante que precisa ser compreendido e supervisionado, ou ainda anda por aí como uma ferramenta solta, decidindo no escuro?

Avanti sempre.

Este artigo faz parte da série que deu origem ao meu novo livro, Comunicação 360°, que chega ainda este ano.


Fontes

Caso Luna / Andon Market: TIME, “Claude Was Put in Charge of Human Workers—and Fired One” (reportagem exclusiva, 14 ago. 2026); Andon Labs (comunicado oficial e perfil no X, incluindo o teste com sete modelos de IA); Business Insider.

Modelo que operava a Luna (Claude Opus 4.8) e reteste com sete modelos: Andon Labs (perfil oficial no X).

Caso Uber / decisões automatizadas sobre motoristas: processo movido pela App Drivers & Couriers Union na Justiça dos Países Baixos, ao abrigo do Art. 22 do RGPD; decisão do Tribunal de Amsterdã (2021).

Caso Meta: ação de 26 funcionários e ex-funcionários (Does 1–26 v. Meta Platforms, Tribunal Federal de Oakland, Califórnia, jul. 2026); CNBC. A Meta nega que decisões de desligamento tenham sido tomadas por IA; o mérito ainda não foi julgado.

Contexto regulatório: “No Robo Bosses Act” (SB 947), Califórnia; regras sobre sistemas de decisão automatizada (ADS).

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