O Arrogômetro™: quanto marca o seu?

O instrumento que mede o que o espelho esconde. Por Claudio Starec

A palavra nasceu numa sessão de mentoria. Eu estava em Lisboa. Ele, no Rio de Janeiro, diretor de um grande hospital, do outro lado da tela.

Um profissional brilhante. Currículo irretocável, resultados sólidos, respeitado pelo mercado e entre seus pares, como um dos maiores e melhores profissionais da sua área. E, mesmo assim, alguma coisa não fechava. A equipe dele falava, e ele não escutava. A liderança acima dele exigia, e ele não escutava. As mensagens chegavam de baixo e de cima, e todas batiam no mesmo muro.

Em determinado momento da conversa, procurei uma palavra para descrever aquele estado mental. Não era incompetência: ele tinha competência de sobra. Não era má-fé: ele queria genuinamente acertar. Era outra coisa. Uma espécie de ponteiro interno, travado lá no alto, que media o quanto ele se achava e bloqueava tudo o que viesse a contrariar essa medida.

Eu disse a ele, através daquela tela que atravessava um oceano: o seu problema não é de gestão. É que o seu Arrogômetro está no talo.

Ele riu. Depois parou de rir. E foi ali, no silêncio depois do riso, que a mentoria de fato começou.

Quanto mais alto, mais rarefeito o ar — e menos você escuta

O Arrogômetro: O instrumento de autoconsciência para líderes de alta performance.

Há uma expressão de que gosto muito, e que aprendi com um superintendente do Senac Rio. Nunca mais esqueci esse ensinamento: quanto mais alto você chega, mais rarefeito o ar é.

Guarde essa ideia. No topo, respira-se pouco e escuta-se menos. As pessoas medem cada palavra antes de dizê-la ao chefe. As más notícias sobem filtradas, quando sobem. E o líder, cercado de concordância, confunde silêncio com acerto. É nesse ar rarefeito que o Arrogômetro dispara: o ponteiro sobe, a escuta desce.

O Arrogômetro™ mede uma distância. De um lado, quem você acha que é. Do outro, quem as pessoas percebem que você é. O tamanho desse vão é a sua leitura no instrumento. Vão pequeno: consciência alinhada. Vão médio: atenção necessária. Vão grande: risco de desconexão.

E aqui está o detalhe cruel: quanto mais alto o cargo, menos gente tem coragem de dizer ao líder que o ponteiro subiu. Por isso, quanto mais poderoso você fica, mais precisa do instrumento — e menos costuma ter coragem de usá-lo.

Eu sei disso na pele. Porque o dia em que o meu próprio Arrogômetro bateu no talo, eu me lembro como se fosse hoje.

“Bom dia como, cara”: as palavras malditas

Eu dirigia o Campus Nova América quando, de madrugada, fui informado de que uma tempestade havia inundado as salas de aula. Faltavam poucos dias para o início das aulas.

Fui direto para o campus. Cheguei tenso, angustiado, preocupado. Era cedo, antes das sete da manhã. E foi ali que aconteceu a cena que carrego comigo até hoje.

O mestre de obras, justamente o homem que teria de reconstruir aquelas salas em tempo recorde, veio na minha direção. Ele tinha diante de si o mesmo caos que eu. E, mesmo com todo o problema, olhou para mim com tranquilidade, abriu um sorriso e disse: “Bom dia, Professor.”

E eu, muito chateado, nervoso com toda aquela situação, respondi com a cara fechada e toda a infelicidade da minha alma:

“Bom dia como, cara?”

Na hora percebi o estrago que tinha causado. Pedi desculpas ali mesmo. Mas pedra atirada e palavra mal dita não voltam atrás, não é mesmo?

Repare no que aconteceu naquele instante. O homem mais simples daquela cena foi o que se comportou com mais grandeza: diante do caos, ainda teve dignidade para desejar um bom dia. E o jovem líder, eu, deixou o cargo, a pressão e o ego falarem mais alto. O meu Arrogômetro estava no talo, e eu nem sabia que ele existia. Fui eu quem precisou inventar o nome, anos depois, para entender o que me atravessou naquela manhã.

Aprendi isso da forma mais dura: não acredito que possamos motivar as pessoas. A motivação é pessoal, é de cada um, ninguém a instala em ninguém. Mas estou convencido de que temos o poder de desmotivar qualquer um. Basta uma palavra mal dita. Ou até uma palavra não dita.

O que a ciência diz sobre isso (e ela concorda comigo)

Vale uma ressalva: essa convicção não é apenas cicatriz de campo. Ela tem mais de sessenta anos de pesquisa por trás.

Em 1959, o psicólogo americano Frederick Herzberg publicou, com Bernard Mausner e Barbara Snyderman, o estudo que deu origem à Teoria dos Dois Fatores. A descoberta dele mudou a forma de entender o trabalho: os fatores que motivam e os fatores que desmotivam não são os mesmos. De um lado estão os fatores motivacionais — realização, reconhecimento, o sentido do próprio trabalho —, que são internos, pessoais, intransferíveis. Do outro estão os fatores higiênicos — salário, condições, e, atenção, a relação com o chefe. E aqui vem o achado que sustenta este artigo inteiro: os fatores higiênicos, quando presentes, não motivam ninguém. Mas, quando falham, desmotivam qualquer um. Herzberg voltou ao tema em 1968, num artigo da Harvard Business Review que se tornou um dos mais republicados da história da revista, para dizer em alto e bom som que chefe nenhum “instala” motivação em ninguém: o que o líder controla, de verdade, é a capacidade de não destruí-la.

Antes dele, Abraham Maslow já havia mostrado, em 1943, que carregamos uma hierarquia de necessidades — e que, bem acima do salário, estão o pertencimento e a estima: a necessidade de ser visto, reconhecido, respeitado. Repare no padrão. Um “bom dia” respondido com grosseria não é um detalhe de etiqueta. É um golpe direto em dois andares da pirâmide de Maslow e uma falha higiênica clássica de Herzberg, tudo numa única frase de quatro palavras.

Foi exatamente o que eu fiz naquela manhã. A ciência apenas me explicou, décadas depois, o tamanho do estrago que eu senti na hora.

O ponteiro no talo custa caro — pergunte ao mercado

Se você acha que isso é sensibilidade demais para o mundo dos negócios, considere o custo documentado da arrogância, um caso recente, com fatura oficial.

A Southwest Airlines é, há décadas, a referência mundial em cultura organizacional: a companhia do “funcionário em primeiro lugar”, estudada em escolas de negócios do mundo inteiro, inclusive por mim, no livro Experiência UAU!. E é exatamente por isso que o que aconteceu em dezembro de 2022 interessa tanto a este artigo.

Durante anos, os sindicatos e as equipes de operação avisaram: o sistema de escalação de tripulações estava velho, sobrecarregado, produzindo soluções absurdas, como despachar tripulantes de um lado a outro do país como passageiros, só para tapar buracos de escala. Era, diziam eles, uma questão de tempo até o colapso. O aviso subiu. E, no topo, o ponteiro não deixou a mensagem entrar.

Aí veio a tempestade de inverno de dezembro de 2022. O software envelhecido não suportou o volume de mudanças, precisou ser desligado, e a companhia mergulhou no pior colapso operacional da história da aviação americana: mais de 16.700 voos cancelados, cerca de 2 milhões de passageiros retidos nas festas de fim de ano, mais de 1 bilhão de dólares em perdas e, um ano depois, uma multa de 140 milhões de dólares do Departamento de Transportes dos Estados Unidos, a maior já aplicada a uma companhia aérea por violação de proteção ao consumidor. O próprio CEO, Bob Jordan, classificou o episódio como o pior daquele tipo que já tinha vivido.

Repare no padrão. Não faltou à Southwest dinheiro, tecnologia disponível no mercado ou informação: a informação estava dentro de casa, repetida durante anos por quem operava o sistema todos os dias. O que faltou foi escuta. E a lição vale ouro justamente por vir de quem vem: se até a empresa símbolo do “funcionário em primeiro lugar” pagou essa conta no dia em que parou de escutar os próprios funcionários, então ninguém está imune. O Arrogômetro não respeita reputação. Ele precisa ser lido todos os dias.

Há um fio ligando essas histórias. O diretor do hospital não escutava a equipe. Eu não escutei um bom dia. A Southwest não escutou anos de avisos. Três escalas, um mesmo ponteiro.

Os três passos que medem a distância entre identidade e reputação.

Como medir o seu vão em três passos

O Arrogômetro não é uma metáfora para admirar. É uma ferramenta para usar. Funciona assim:

1. Olhe para dentro. Escreva três palavras que, na sua cabeça, definem a sua liderança. Aqui é preciso coragem para entrar na zona de desconforto e fazer uma autoavaliação sobre a perceção que tem de si mesmo.

2. Olhe para fora. Peça a cinco pessoas que trabalham com você — de preferência gente que não depende do seu bom humor — três palavras cada uma para descrever você. Não explique por quê. Não explique por que está perguntando. Quando as pessoas sabem que estão sendo avaliadas, elas respondem ao líder. Quando não sabem, respondem à realidade.

3. Meça o vão. Compare as duas listas. A distância entre elas é a sua leitura no Arrogômetro: o tamanho do vão entre quem você acha que é e quem os outros percebem.

Fiz esse exercício com o diretor do hospital. E o que as duas listas revelaram, o tamanho do vão e o que ele custou, merece ser contado por inteiro. As palavras dele falavam de visão, firmeza e proteção. Quando rodamos o exercício, as palavras da equipe chegaram sem anestesia: distante. Poder. Firme às vezes, autoritário.

O que aconteceu com o diretor do hospital

Volto ao começo, porque essa história merece o seu desfecho.

O vão era grande. A boa notícia: vão medido é vão que pode ser atravessado. Meses depois, o mesmo hospital, com as mesmas pessoas, funcionava de outro jeito. Nada mudou no organograma. Mudou o ponteiro.

E aqui estava o tamanho do vão. Aquele era um homem que brigava com a direção do hospital para defender uma gestão mais humanizada. As metas de redução de custo que desciam de cima feriam aquilo em que ele acreditava, e ele comprava essa briga todos os dias. Na cabeça dele, era o protetor da equipe. Na percepção da equipe, era um muro. O gestor que lutava pela humanização não era percebido como humano por quem ele protegia. Não existe leitura mais cruel, nem mais comum, no Arrogômetro.

E o ponteiro no talo cobrou um segundo preço, ainda mais caro. Eu sentia a fritura de longe; ele também sentia. Quando a direção propôs tirá-lo do setor onde ele tinha o poder de decisão e era referência, ele quase pirou. Leu a proposta como um senhor downgrade. Precisei mostrar, sessão após sessão, o que o orgulho não deixava enxergar: aquilo era um presente. Mesmo salário, muito menos pressão e a chance de construir e consolidar uma área nova, do zero, com a cara dele.

Guarde essa ideia: o Arrogômetro no talo não bloqueia apenas as críticas. Bloqueia também as oportunidades. Faz um presente parecer uma ofensa.

Ele aceitou. Construiu a área. Consolidou. E quando, tempos depois, foi desligado do hospital, foi exatamente essa área nova que o recolocou no mercado: hoje atua como consultor de outra grande rede hospitalar, estruturando justamente a área que o “downgrade” o ensinou a criar. O que o ego chamou de rebaixamento, o tempo chamou de reinvenção.

A zona de desconforto começa no espelho

No último artigo desta newsletter, falei das Zonas de Desconforto — a arte de desafiar sem destruir, e do executivo que bateu todas as metas com três anos de antecedência enquanto suas cinco gerências implodiam em silêncio. Escrevi lá que desconforto sem cuidado não é gestão de alta performance: é dano em câmera lenta.

O Arrogômetro é a outra metade dessa conversa. Porque o primeiro desconforto que um líder precisa administrar não é o do time. É o dele. Pedir três palavras a cinco pessoas e ler o resultado sem se defender: essa é a zona de desconforto mais difícil de todas, a que fica entre o líder e o espelho. Quem não tem coragem de entrar nela acaba, mais cedo ou mais tarde, empurrando o time para a zona errada — a do medo, a do silêncio, a do “bom dia” que ninguém mais tem vontade de dar.

Humildade é enxergar a distância. Coragem é atravessá-la.

Desde aquele dia no Campus Nova América, nunca mais consegui ouvir um “bom dia” da mesma forma.

Porque aprendi que toda liderança começa antes da primeira decisão do dia.

Ela começa na primeira palavra dita, maldita ou não dita.

O Arrogômetro é uma das ferramentas do meu novo livro, Liderança 360°: Os 5 Ps da Alta Performance, onde aparece no capítulo sobre Posicionamento — porque você não é quem pensa que é; é quem os outros percebem.

Antes de fechar esta página, faça o teste honesto: se cinco pessoas da sua equipe escrevessem três palavras sobre você hoje, o quanto elas se pareceriam com as suas?

E uma pergunta ainda mais simples, que eu me faço desde aquela manhã no Nova América: como você respondeu ao último “bom dia” que recebeu?

Se alguma dessas respostas te incomodou, ótimo. O incômodo é o ponteiro começando a descer.


Claudio Starec é consultor, mentor de executivos, palestrante e autor de dez livros. Doutor em Ciência da Informação, criou o Sistema Starec de Liderança 360° e o Método HELIAR™. Atua entre o Rio de Janeiro e Lisboa.

Este artigo apresenta, pela primeira vez, um dos instrumentos do Sistema Starec de Liderança 360°, desenvolvido ao longo de anos de mentoria com executivos.

Referências: HERZBERG, Frederick; MAUSNER, Bernard; SNYDERMAN, Barbara. The Motivation to Work. Nova York: John Wiley & Sons, 1959. · HERZBERG, Frederick. One more time: how do you motivate employees? Harvard Business Review, 1968. · MASLOW, Abraham H. A theory of human motivation. Psychological Review, v. 50, n. 4, p. 370-396, 1943. · Caso Southwest Airlines (dez. 2022): dados do U.S. Department of Transportation (consent order e multa de US$ 140 milhões, dez. 2023) e cobertura de imprensa internacional (Fortune, AP, Simple Flying).

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