Numa via de Lisboa, entre uma placa que aponta para Benfica e outra que manda reduzir a 40, apareceu um cartaz gigante. De um lado, Cristiano Ronaldo com a camisa da Seleção, olhar para o alto. Do outro, Jorge Jesus, em tons sombrios. No meio, em letras de cinema: “Obrigado, Cristiano Ronaldo. Serás sempre o nosso capitão.” Logo à frente, um sinal de trânsito avisa: curva perigosa. Ninguém planejou, mas não há legenda melhor para esta semana.
Repare no detalhe. O cartaz não diz “volta”. Diz “obrigado”. Tem cara de despedida e de acusação ao mesmo tempo.
Ontem Portugal venceu a Dinamarca por 4 a 2. Em qualquer outra semana, seria a manchete. Hoje virou nota de rodapé. Nos painéis da televisão portuguesa, a pergunta trocou de lado: se ontem se discutia a atitude de Cristiano, hoje muita gente quer saber onde estava o líder enquanto a crise crescia.
No artigo anterior, defendi a coragem de Jesus de dizer não. Mantenho cada palavra. Mas fiquei com uma inquietação que não cabia ali.
A decisão certa e a gestão errada
Uma decisão é um ato. A gestão da crise que ela provoca é um processo. E os dois merecem notas separadas.
Jesus tinha o direito, talvez o dever, de deixar Cristiano no banco. Avisou desde julho que o critério seria o desempenho. O problema não está no não. Está no que veio depois dele. Quando a frase que marca a semana é “nenhum jogador vai mudar as minhas ideias”, o recado deixa de ser para o grupo e passa a ser para a plateia.
Crise de ego não se resolve com mais ego. Diante de uma estrela ferida, o líder experiente baixa a temperatura antes de aumentar o volume. Chama para a conversa, protege a pessoa em público e mantém a decisão em privado. Dá para vencer a queda de braço e, ainda assim, perder a confiança de quem assiste. Os cartazes de hoje são a prova de que a torcida já escolheu um lado, e não foi o do treinador.

O menino que leva a bola embora
Agora, o outro lado. E ele não é mais confortável.
Todo mundo conheceu, na infância, o dono da bola. Ele joga bem, escolhe o time, cobra todas as faltas. Quando é contrariado, pega a bola e vai para casa. E o jogo acaba para todos.
Cristiano fez isso. Aos 41 anos, capitão, maior artilheiro da história das seleções no futebol masculino, um homem que não precisa provar mais nada a ninguém. Discordar era direito dele. Ir embora na véspera do jogo, não. Liberdade na discussão, lealdade na decisão. A braçadeira não é um troféu do passado; é um compromisso com quem fica no vestiário.
E há uma ironia que os cartazes escondem. O time ganhou sem ele, e com folga. Para o dono da bola, essa é a pior notícia possível: o jogo continuou.
O cartaz que deveria assustar os dois
Quem viu aquele cartaz como homenagem a um e recado ao outro leu só metade. Ele é, sobretudo, o retrato de uma instituição que perdeu a semana. Quando o líder e a estrela brigam em público, a arquibancada vira tribunal, e ninguém sai absolvido.
Nas empresas é igual. Quando o diretor e o melhor vendedor medem forças no corredor, a equipe não discute mais metas. Discute de que lado está. E alguém, em algum canto, começa a montar o seu próprio cartaz.
Jesus pode ter razão no critério e errar na condução. Cristiano pode ter razão na mágoa e errar na saída. Uma coisa não anula a outra. É justamente isso que torna o caso tão útil para quem lidera.
Fica a pergunta para você: na sua empresa, quem é o dono da bola? E quando você tem razão, sabe administrá-la, ou precisa que todos vejam?
Ter razão é fácil. Difícil é ter razão sem incendiar a casa.
Avanti sempre. Conta aqui nos comentários: de que lado você ficou?


