Quarta-feira, Copenhague. Faltava um dia para Portugal enfrentar a Dinamarca pela Liga das Nações quando Cristiano Ronaldo, capitão e maior artilheiro da história da Seleção, deixou a concentração. Saiu do estádio pouco depois da entrevista coletiva do treinador, sem participar do treino. Mais tarde, nas redes sociais, confirmou a saída após conversar com o presidente da Federação e prometeu contar, a seu tempo, as razões que a motivaram. Talvez tenha vestido a camisa de Portugal pela última vez.
Em poucas horas, o episódio deixou de ser assunto português. Ganhou o noticiário esportivo do mundo inteiro, e o canal francês RMC Sport já o chama de “psicodrama”. Não é para menos: Cristiano não é só a maior referência do futebol de Portugal. É uma das figuras mais conhecidas do esporte mundial.
Do outro lado ficou Jorge Jesus, há menos de três meses no cargo. E ficou uma pergunta que interessa muito além do futebol: o que faz um líder quando precisa dizer não ao maior talento da casa?
O não começou muito antes de Copenhague
Na coletiva, Jesus foi de uma clareza rara. Explicou que já havia planejado não usar Cristiano, de 41 anos, contra Noruega e Dinamarca, numa gestão de carga que vinha dos tempos em que trabalharam juntos no Al-Nassr. E contou que comunicou isso diretamente ao jogador: ele iria para o banco e só entraria se fosse preciso. Depois, resumiu sua posição numa frase: “Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias.”
A saída pode ter parecido repentina, mas o critério vinha de antes. Na apresentação, em julho, Jesus já deixara claro que a utilização de Cristiano dependeria das suas decisões como treinador. Em setembro, na primeira convocação, foi ainda mais direto: o histórico é importante, mas são o desempenho atual, os jogos e os treinos que determinam quem joga.
E essa é a primeira lição: um não só tem autoridade quando o critério vem antes da decisão e é dito de frente. O líder que inventa a regra na hora do conflito parece vingativo. O que aplica a regra que todos já conheciam, olhando nos olhos de quem a recebe, parece justo, mesmo quando dói.
Quanto mais alto, mais rarefeito o ar
Costumo dizer aos líderes que mentoro que, quanto mais alto se sobe, mais rarefeito fica o ar: menos gente tem coragem de dizer a verdade. Isso vale também para a estrela. Depois de tantos anos no topo, quantas vezes alguém disse não a Cristiano Ronaldo?
Quando ninguém diz não à estrela durante anos, ela não fica mais forte. Fica mais frágil.
Há outra máxima que repito há anos: autonomia não significa soberania. O status dá ao craque liberdade, voz e respeito. Não lhe dá o direito de escolher se joga.
O novato e o horário nobre
Jesus apresentou sua decisão como gestão física, não como avaliação de rendimento, e esse diagnóstico é dele, com dados que só ele tem. Mas a pergunta de fundo, quem joga, vale para qualquer organização. E, como princípio de gestão, não tenho meio-termo: se o talento consagrado não está entregando e existe alguém, com menos fama e menos estrada, capaz de render mais para o grupo, eu escolho o segundo. Sempre.
E falo com conhecimento de causa, porque um dia fui esse segundo. Eu tinha vinte e poucos anos e era um calouro na reportagem da TV Manchete, escalado no horário da noite. Numa matéria, fiz uma pergunta a um general. Meu chefe de reportagem viu aquela pergunta e concluiu que eu estava pronto para o horário nobre. Havia repórteres com muito mais estrada do que eu. Ele não olhou para o meu tempo de casa nem para o meu passado, que praticamente não existia. Olhou para o que eu podia entregar naquele momento.
Foi a maior lição da minha carreira, e levei-a para todos os cargos de gestão que ocupei depois: não é o tempo de casa nem o currículo que definem o seu lugar no time. É o que você pode entregar hoje.
Liberdade na discussão, lealdade na decisão
Essa discussão também envolve a responsabilidade de quem recebe o não. Existe uma máxima de gestão de que gosto muito: liberdade na discussão, lealdade na decisão. Cristiano tinha todo o direito de discordar de Jesus. Podia questionar, argumentar, pedir uma conversa franca.
O que critico, com as informações disponíveis, é a decisão de sair na véspera de uma partida, quando o grupo precisava do seu capitão por perto, ainda que no banco. A braçadeira não é um prêmio pelo passado; é um compromisso com quem fica no vestiário.
Faço justiça: ao sair, ele desejou boa sorte a Portugal e aos companheiros, e escreveu que sempre se dedicou à Seleção. Ninguém duvida disso. Imagino a dor de quem chega a este ponto depois de uma vida assim. Ainda faltam as explicações dele, mas o peso dessa ausência já está colocado.
Digo isso com o desconforto de quem sempre elogiou e admirou Cristiano. Justamente por isso, esta saída não condiz com a história e a carreira que ele construiu.
Preservar a pessoa depois do não
O líder também tem deveres depois do não. A decisão e a tristeza cabem na mesma frase: o treinador tinha o direito de decidir, e o desfecho continua sendo triste. O não do líder recai sobre uma escolha, nunca sobre a história de quem a recebe. Mais de 230 jogos e 146 gols não garantem lugar cativo, mas merecem uma saída à altura.
Hoje à noite a Seleção entra em campo sem o seu maior símbolo. O placar vai ditar as manchetes de amanhã, mas não muda a lição. Uma decisão de liderança não fica certa só porque o time ganhou nem errada só porque perdeu. Fica certa quando o critério é claro, foi comunicado antes e serve ao grupo.
E na sua empresa? Quem é a estrela a quem ninguém diz não? Quantas decisões estão sendo tomadas só para não contrariá-la? E você, líder, já disse o não que está devendo?
Nenhuma estrela brilha mais do que o time que ela deveria servir.


