{"id":1185,"date":"2026-08-31T09:35:44","date_gmt":"2026-08-31T12:35:44","guid":{"rendered":"https:\/\/claudiostarec.com.br\/?p=1185"},"modified":"2026-08-31T09:35:45","modified_gmt":"2026-08-31T12:35:45","slug":"ele-apontou-para-a-minha-cadeira-e-disse-quero-sentar-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claudiostarec.com.br\/index.php\/2026\/08\/31\/ele-apontou-para-a-minha-cadeira-e-disse-quero-sentar-ai\/","title":{"rendered":"Ele apontou para a minha cadeira e disse: \u201cQuero sentar a\u00ed!\u201d"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gera\u00e7\u00f5es, prop\u00f3sito e IA: o desafio da media\u00e7\u00e3o na Equipe Multigeracional de Intelig\u00eancia H\u00edbrida<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordenei, pela Comunicare, um programa de est\u00e1gio para uma grande distribuidora de energia. Formar jovens sempre foi das coisas que mais me deram alegria em trinta e cinco anos de estrada, e naquele grupo havia gente brilhante. No meio de uma din\u00e2mica, uma estagi\u00e1ria me procurou. Estava visivelmente inconformada. Sentei com ela para entender a insatisfa\u00e7\u00e3o e a resposta me pegou de surpresa: estava h\u00e1 tr\u00eas meses na empresa e ainda n\u00e3o tinha sido promovida.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tr\u00eas meses.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o a corrigi na hora. Fiquei pensando. Porque aquilo me devolveu uma cena antiga. Anos atr\u00e1s, como executivo de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino, recebi para uma conversa um jovem que me indicaram para a equipe. Perguntei qual era o objetivo dele. Ele apontou para a minha cadeira e disse, com toda a naturalidade do mundo: \u201cQuero sentar a\u00ed.\u201d N\u00e3o em dez anos. J\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca eu n\u00e3o tinha palavra para aquilo. Hoje tenho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"563\" src=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/conflito-de-geracao-claudio-starec-1024x563.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-1186\" srcset=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/conflito-de-geracao-claudio-starec-1024x563.webp 1024w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/conflito-de-geracao-claudio-starec-300x165.webp 300w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/conflito-de-geracao-claudio-starec-768x422.webp 768w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/conflito-de-geracao-claudio-starec.webp 1488w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O timing das gera\u00e7\u00f5es<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O rel\u00f3gio deles corre diferente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha gera\u00e7\u00e3o, lev\u00e1vamos dez, quinze anos para nos formarmos como l\u00edderes. Havia uma paci\u00eancia embutida no processo, e a paci\u00eancia n\u00e3o era virtude, era arquitetura: a lideran\u00e7a se sedimentava por camadas, erro sobre erro, contexto sobre contexto. Para as gera\u00e7\u00f5es mais novas, o tempo tem outra velocidade. <strong><em>A lideran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais um sedimento, \u00e9 um clique.<\/em><\/strong> Semanas, meses. A cadeira est\u00e1 ali, por que esperar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria f\u00e1cil transformar isso em queixa de quem j\u00e1 tem cabelo branco. N\u00e3o \u00e9. H\u00e1 algo leg\u00edtimo no imediatismo deles, e h\u00e1 algo que se perdeu no caminho. E o que se perdeu, eu s\u00f3 entendi de verdade quando parei para pensar no que aquela pressa toda estava buscando. No fundo, o rapaz n\u00e3o queria a cadeira. Queria o que ele imaginava que a cadeira significava: <strong>prop\u00f3sito, lugar, sentido<\/strong>. E foi a\u00ed que me lembrei do ikigai.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ikigai-claudio-starec-comunicacao-360-683x1024.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-1187\" srcset=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ikigai-claudio-starec-comunicacao-360-683x1024.webp 683w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ikigai-claudio-starec-comunicacao-360-200x300.webp 200w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ikigai-claudio-starec-comunicacao-360-768x1152.webp 768w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ikigai-claudio-starec-comunicacao-360.webp 1000w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ikigai &#8211; modelo Heliar, 2026<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que o infogr\u00e1fico do Ikigai n\u00e3o conta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea j\u00e1 viu o diagrama: quatro c\u00edrculos, o que voc\u00ea ama, no que \u00e9 bom, o que o mundo precisa, pelo que pagam, e no centro, iluminado, o prop\u00f3sito. Ele virou infogr\u00e1fico de palestra, papel de parede de coach. O que quase ningu\u00e9m conta \u00e9 que esse diagrama n\u00e3o nasceu no Jap\u00e3o. Foi popularizado por um blogueiro brit\u00e2nico em 2014, adaptando o esquema de prop\u00f3sito de um autor espanhol, e depois batizado de \u201cikigai\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ikigai que a psiquiatra Mieko Kamiya descreveu em 1966 \u00e9 outra coisa. \u00c9 simplesmente \u201c<strong><em>uma raz\u00e3o para levantar de manh\u00e3<\/em><\/strong>\u201d. E, o detalhe que muda tudo, \u00e9 um processo lento. Tem pouco a ver com carreira ou dinheiro. O sentido, na tradi\u00e7\u00e3o de Okinawa, n\u00e3o \u00e9 o pr\u00eamio no fim da jornada. \u00c9 o que se acumula nos pequenos atos di\u00e1rios da pr\u00f3pria jornada. A conversa sem agenda com um colega. A mesma \u00e1rvore que voc\u00ea repara a cada esta\u00e7\u00e3o no caminho do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebe a ironia? Quem busca prop\u00f3sito com mais urg\u00eancia est\u00e1 atr\u00e1s dele na velocidade da m\u00e1quina, quando o prop\u00f3sito, na formula\u00e7\u00e3o original, \u00e9 precisamente aquilo que s\u00f3 o tempo devagar constr\u00f3i. O rapaz queria a cadeira. Mas a cadeira, no sentido que importa, n\u00e3o se ocupa. Se merece, e merecer leva tempo.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Agora imagine a m\u00e1quina na mesma mesa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui a coisa fica interessante. Porque esse jovem impaciente n\u00e3o trabalha mais s\u00f3 com humanos. Ele senta ao lado de agentes inteligentes. E o agente entrega exatamente o que o imediatismo pede: resposta imediata, sem hesitar, sem o \u201cdeixa eu pensar\u201d de um gestor humano ocupado. N\u00e3o por acaso, uma pesquisa recente mostra que mais da metade dos profissionais da gera\u00e7\u00e3o Z, diante de uma tarefa dif\u00edcil, prefere recorrer \u00e0 IA a procurar o gestor. O interlocutor mais r\u00e1pido venceu. E n\u00e3o \u00e9 o humano ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 que o agente, por baixo do cap\u00f4, precisa de media\u00e7\u00e3o. Precisa do humano no circuito, dando dire\u00e7\u00e3o, corrigindo rota, comunicando o porqu\u00ea. E aqui aparece um paradoxo que come\u00e7a a ganhar nome na discuss\u00e3o sobre IA: quanto mais a m\u00e1quina assume, mais precisamos de supervis\u00e3o humana, justamente quando o tempo e a energia para supervisionar ficam mais escassos. O supervisor sobrecarregado pode acabar fazendo o contr\u00e1rio do que deveria: delega de volta \u00e0 m\u00e1quina o pr\u00f3prio julgamento que deveria exercer sobre ela. A media\u00e7\u00e3o vira fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junte as pe\u00e7as. De um lado, um jovem para quem esperar \u00e9 fracasso. Do outro, uma m\u00e1quina veloz que precisa de uma paci\u00eancia humana que ningu\u00e9m tem tempo de exercer. No meio, uma equipe de cinco gera\u00e7\u00f5es que j\u00e1 nem compartilha o mesmo rel\u00f3gio. \u00c9 o que venho chamando de EMIH, a Equipe Multigeracional de Intelig\u00eancia H\u00edbrida, e o seu maior desafio n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnico. \u00c9 de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O ru\u00eddo n\u00e3o est\u00e1 na velocidade. Est\u00e1 entre as velocidades.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rapaz da cadeira n\u00e3o estava errado por querer chegar. Estava sem repert\u00f3rio para entender que a chegada \u00e9 feita de caminho. O agente de IA n\u00e3o est\u00e1 errado por responder r\u00e1pido, e seria injusto dizer que lhe falta contexto: ele processa mais contexto do que qualquer um de n\u00f3s daria conta. O que a m\u00e1quina n\u00e3o faz \u00e9 decidir qual contexto importa. Esse julgamento ainda \u00e9 nosso. E o supervisor cansado n\u00e3o \u00e9 vil\u00e3o. \u00c9 algu\u00e9m a quem pediram para mediar sem lhe darem o tempo da media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa mesa dessas, <strong>comunicar deixou de ser transmitir uma mensagem<\/strong>. <strong><em>Virou traduzir entre rel\u00f3gios diferentes<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Entre a gera\u00e7\u00e3o que quer j\u00e1, a m\u00e1quina que responde j\u00e1, e a sabedoria antiga, muito antiga, de que o que d\u00e1 sentido ao trabalho n\u00e3o cabe no j\u00e1.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a pergunta n\u00e3o seja como fazer o jovem ter mais paci\u00eancia ou a m\u00e1quina ter mais contexto. Talvez seja mais simples e mais dif\u00edcil: <strong>na sua equipe, ainda existe algu\u00e9m com tempo para mediar? Ou a pressa de todos j\u00e1 terceirizou para a m\u00e1quina o julgamento que deveria ser nosso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Avanti sempre!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este artigo faz parte da s\u00e9rie que deu origem ao meu novo livro, Comunica\u00e7\u00e3o 360\u00b0, que chega ainda este ano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fontes e refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dado dos 56% vem de upGrad Enterprise, \u201cThe GenAI Gap: GenZ &amp; the Modern Workplace\u201d (pesquisa com 3.512 profissionais Gen Z). Sobre o ikigai: Mieko Kamiya, \u201cIkigai ni Tsuite\u201d (1966); o diagrama viral de quatro c\u00edrculos foi popularizado por Marc Winn (2014), que combinou o esquema de prop\u00f3sito de Andr\u00e9s Zuzunaga com o conceito japon\u00eas, e n\u00e3o corresponde \u00e0 formula\u00e7\u00e3o tradicional; longevidade em Okinawa (Blue Zones, Dan Buettner). Sobre os limites da supervis\u00e3o humana de sistemas de IA: literatura recente (2026) sobre human-in-the-loop e carga cognitiva da supervis\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gera\u00e7\u00f5es, prop\u00f3sito e IA: o desafio da media\u00e7\u00e3o na Equipe Multigeracional de Intelig\u00eancia H\u00edbrida Coordenei, pela Comunicare, um programa de est\u00e1gio para uma grande distribuidora de energia. Formar jovens sempre foi das coisas que mais me deram alegria em trinta e cinco anos de estrada, e naquele grupo havia gente brilhante. 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