{"id":1032,"date":"2026-08-05T09:24:23","date_gmt":"2026-08-05T12:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/claudiostarec.com.br\/?p=1032"},"modified":"2026-08-10T09:29:19","modified_gmt":"2026-08-10T12:29:19","slug":"pronto-o-problema-nao-e-fazer-e-terminar-da-forma-certa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claudiostarec.com.br\/index.php\/2026\/08\/05\/pronto-o-problema-nao-e-fazer-e-terminar-da-forma-certa\/","title":{"rendered":"Pronto! O problema n\u00e3o \u00e9 fazer. \u00c9 terminar da forma certa."},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Pronto!&#8221; A arte do imperfeito.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha jornada como professor, dei aula para turmas de forma\u00e7\u00e3o de intendentes da Marinha, no CIAW, o Centro de Instru\u00e7\u00e3o Almirante Wandenkolk, na Ilha das Enxadas, no meio da Ba\u00eda de Guanabara. Chegar l\u00e1 era uma opera\u00e7\u00e3o: eu tinha que pegar o barco no cais da Pra\u00e7a XV \u00e0s sete em ponto, ou perdia a aula, que come\u00e7ava \u00e0s oito, nem um minuto a mais. A travessia levava uns trinta minutos, com a cidade acordando \u00e0s minhas costas e a ilha crescendo \u00e0 frente. Quando eu entrava na sala, todos se levantavam. Disciplina de outro planeta, o que faz sentido: a Marinha \u00e9 a mais antiga das nossas For\u00e7as Armadas, com mais de dois s\u00e9culos de hist\u00f3ria. Ali, cada gesto tem hora e prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ali que um oficial me ensinou algo que carrego at\u00e9 hoje. Ele me apresentou o &#8220;<strong>Pronto!<\/strong>&#8220;. \u00c9 assim que o marinheiro sinaliza que terminou a tarefa: bateu contin\u00eancia, disse &#8220;Pronto!&#8221;, miss\u00e3o encerrada. Elegante, direto. S\u00f3 que os pr\u00f3prios intendentes fizeram uma ressalva que me deixou pensando por semanas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <strong>&#8220;Pronto!&#8221; garante que a tarefa foi executada. N\u00e3o garante que foi bem executada<\/strong>. <em>E entre uma coisa e outra mora um abismo<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece sutileza, mas n\u00e3o \u00e9. A gente vive confundindo as duas coisas. Terminar d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o boa, quase f\u00edsica, de dever cumprido: riscamos o item da lista, respiramos aliviados e seguimos em frente. S\u00f3 que <em>&#8220;terminei&#8221; e &#8220;ficou bom&#8221; s\u00e3o perguntas diferentes, e a segunda quase nunca \u00e9 feita.<\/em> No mundo do treinamento corporativo existe at\u00e9 um nome para esse v\u00edcio: <strong>fazeja\u00e7\u00e3o ou fazejamento.<\/strong> <strong>A arte de fazer sem pensar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Produzir pelo produzir, entregar pelo entregar, sem parar um segundo para perguntar se aquilo faz realmente sentido.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fazejacao-ou-fazejamento-a-arte-de-fazer-sem-pensar-claudio-starec-1024x683.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-1034\" srcset=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fazejacao-ou-fazejamento-a-arte-de-fazer-sem-pensar-claudio-starec-1024x683.webp 1024w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fazejacao-ou-fazejamento-a-arte-de-fazer-sem-pensar-claudio-starec-300x200.webp 300w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fazejacao-ou-fazejamento-a-arte-de-fazer-sem-pensar-claudio-starec-768x512.webp 768w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fazejacao-ou-fazejamento-a-arte-de-fazer-sem-pensar-claudio-starec.webp 1488w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fazeja\u00e7\u00e3o ou fazejamento: a arte de fazer sem pensar.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A<strong> fazeja\u00e7\u00e3o t<\/strong>em muitos rostos. O mais comum \u00e9 a pressa de entregar, e um exemplo recente saiu car\u00edssimo. Em maio de 2024, a Sonos, fabricante americana de caixas de som de alto padr\u00e3o, lan\u00e7ou uma vers\u00e3o totalmente nova do aplicativo que controla seus equipamentos, prometendo algo mais r\u00e1pido e melhor. Havia pressa: os primeiros fones da marca estavam para chegar \u00e0s lojas, e o app precisava sair junto. Lan\u00e7aram. Estava pronto. S\u00f3 que n\u00e3o estava bem feito. O app novo tinha removido fun\u00e7\u00f5es que as pessoas usavam todo dia, do alarme \u00e0 acessibilidade, e alguns aparelhos simplesmente pararam de tocar. Choveram mais de 30 mil reclama\u00e7\u00f5es, e a empresa viu quase meio bilh\u00e3o de d\u00f3lares evaporarem em valor de mercado. Em janeiro de 2025, o executivo \u00e0 frente da companhia deixou o cargo. Seu sucessor resumiu o desastre em cinco palavras: mudamos coisa demais, r\u00e1pido demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a <strong>fazeja\u00e7\u00e3o<\/strong> nem sempre \u00e9 a pressa. \u00c0s vezes ela \u00e9 mais sofisticada, e mais assustadora: voc\u00ea tem todos os dados na m\u00e3o e erra do mesmo jeito. Foi o que aconteceu com a Coca-Cola em 1985, no que viraria um dos maiores fiascos da hist\u00f3ria do marketing.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela \u00e9poca, a Coca vinha perdendo terreno para a Pepsi, mais doce e mais popular entre os jovens. A empresa resolveu reagir com m\u00e9todo. Gastou 4 milh\u00f5es de d\u00f3lares num dos maiores estudos de sabor j\u00e1 feitos, ouvindo cerca de 200 mil pessoas. O veredito foi claro: o p\u00fablico preferia uma f\u00f3rmula nova, mais adocicada, tanto \u00e0 Pepsi quanto \u00e0 pr\u00f3pria Coca de sempre. Com esse dado na m\u00e3o e toda a confian\u00e7a do mundo, a empresa fez o impens\u00e1vel. Aposentou a receita de quase cem anos e lan\u00e7ou a New Coke.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que veio depois n\u00e3o estava em nenhum gr\u00e1fico. Os americanos se revoltaram. A empresa chegou a receber at\u00e9 8 mil liga\u00e7\u00f5es por dia e cerca de 40 mil cartas de reclama\u00e7\u00e3o. Formaram-se grupos de protesto de gente que s\u00f3 queria a bebida antiga de volta, estocando latas da velha f\u00f3rmula como se fossem rel\u00edquias. N\u00e3o havia internet; a indigna\u00e7\u00e3o corria por telefone, carta e boca a boca. At\u00e9 Fidel Castro, l\u00e1 de Cuba, entrou na dan\u00e7a, tratando a mudan\u00e7a como sinal da decad\u00eancia do capitalismo americano. Setenta e nove dias depois, de rabo entre as pernas, a Coca-Cola se rendeu, reconheceu o erro e trouxe a f\u00f3rmula original de volta, rebatizada de Coca-Cola Classic.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/testaram-o-sabor-e-nao-o-valor-da-marca-claudio-starec-1024x683.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-1033\" srcset=\"https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/testaram-o-sabor-e-nao-o-valor-da-marca-claudio-starec-1024x683.webp 1024w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/testaram-o-sabor-e-nao-o-valor-da-marca-claudio-starec-300x200.webp 300w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/testaram-o-sabor-e-nao-o-valor-da-marca-claudio-starec-768x512.webp 768w, https:\/\/claudiostarec.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/testaram-o-sabor-e-nao-o-valor-da-marca-claudio-starec.webp 1488w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Testaram o sabor e n\u00e3o o valor da marca<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqui est\u00e1 o que me fascina. A Coca tinha os dados. Ela s\u00f3 perguntou a coisa errada. Testou o sabor no copo, \u00e0s cegas, e nunca perguntou o que aquela garrafa vermelha significava na vida das pessoas: a inf\u00e2ncia, as lembran\u00e7as, o pertencimento. A pergunta certa nunca foi feita. A pesquisa apenas respondeu, com precis\u00e3o, \u00e0 pergunta errada. <strong>Fazeja\u00e7\u00e3o<\/strong>, no fundo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falta de pesquisa. \u00c9 agir no piloto autom\u00e1tico mesmo com uma montanha de n\u00fameros na mesa, porque ningu\u00e9m parou para pensar se estava medindo o que de fato importava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se voc\u00ea acha que isso s\u00f3 acontece nas grandes empresas, tenho uma m\u00e1 not\u00edcia. O Anatomy of Work Index, estudo da Asana com mais de dez mil profissionais, mostra que o trabalhador m\u00e9dio gasta 60% do tempo em &#8220;trabalho sobre o trabalho&#8221;: reuni\u00e3o, status, procurar arquivo, alinhar o que j\u00e1 estava alinhado. Sobra s\u00f3 26% para aquilo que a pessoa foi de fato contratada para fazer. E cada um perde, por ano, cerca de 209 horas refazendo tarefa duplicada ou j\u00e1 sem sentido. \u00c9 mais de um m\u00eas de trabalho jogado na <strong>fazeja\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso gosto de contrapor duas palavras. A <strong>fazeja\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 o oposto exato da acabativa. E a acabativa n\u00e3o \u00e9 perfeccionismo, \u00e9 responsabilidade. \u00c9 entender que entregar \u00e9 apenas metade do trabalho; a outra metade \u00e9 garantir que aquilo resolve mesmo o problema para o qual foi criado. A <strong>fazeja\u00e7\u00e3o<\/strong>, ao contr\u00e1rio, s\u00f3 quer riscar o item da lista e sentir o al\u00edvio de terminar. Uma constr\u00f3i legado. A outra constr\u00f3i retrabalho, aquele bumerangue que volta na sua mesa uma semana depois.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ant\u00eddoto, curiosamente, n\u00e3o \u00e9 trabalhar mais. \u00c9 trocar uma pergunta por outra. <strong><em>Em vez de &#8220;j\u00e1 ficou pronto?&#8221;, experimente perguntar &#8220;ficou bem feito?&#8221;<\/em><\/strong>. Parece detalhe de nada. Na <strong>pr\u00e1tica, \u00e9 a diferen\u00e7a entre uma equipe que entrega valor e uma equipe que s\u00f3 se mexe muito.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fica ent\u00e3o a provoca\u00e7\u00e3o, no melhor estilo daqueles intendentes: o seu <strong><em>&#8220;Pronto!&#8221; \u00e9 mesmo pronto?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fontes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marinha do Brasil, Diretoria do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Documenta\u00e7\u00e3o da Marinha (DPHDM). <a href=\"http:\/\/marinha.mil.br\/\">marinha.mil.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caso Sonos: CNBC, &#8220;Sonos CEO steps down after app update debacle&#8221; (jan. 2025). <a href=\"http:\/\/cnbc.com\/2025\/01\/13\/sonos-ceo-patrick-spence-steps-down-after-app-update-debacle.html\">cnbc.com\/2025\/01\/13\/sonos-ceo-patrick-spence-steps-down-after-app-update-debacle.html<\/a> \u2014 TechRadar, entrevista com Tom Conrad. <a href=\"http:\/\/techradar.com\/audio\/multi-room\/sonos-ceo-tom-conrad-interview-app-changes\">techradar.com\/audio\/multi-room\/sonos-ceo-tom-conrad-interview-app-changes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caso New Coke: Encyclopaedia Britannica, &#8220;New Coke&#8221;. <a href=\"http:\/\/britannica.com\/topic\/New-Coke\">britannica.com\/topic\/New-Coke<\/a> \u2014 The Irish Times, &#8220;How the Cola Wars eventually ran out of fizz&#8221; (dez. 2025). <a href=\"http:\/\/irishtimes.com\/business\/economy\/2025\/12\/19\/how-the-cola-wars-eventually-ran-out-of-fizz\">irishtimes.com\/business\/economy\/2025\/12\/19\/how-the-cola-wars-eventually-ran-out-of-fizz<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisa Asana: Anatomy of Work Index 2022, comunicado oficial (BusinessWire). <a href=\"http:\/\/businesswire.com\/news\/home\/20220405005399\">businesswire.com\/news\/home\/20220405005399<\/a> \u2014 <a href=\"http:\/\/asana.com\/resources\/why-work-about-work-is-bad\">asana.com\/resources\/why-work-about-work-is-bad<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Pronto!&#8221; A arte do imperfeito. 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